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Você recebeu o direito de olhar através da Pedra do Destino. O conto a seguir não pertence à saga que você acompanhou. Passou-se muito tempo desde os juramentos e as guerras daquela era; mais de mil anos separam estas páginas daquele mundo. Andronor seguiu adiante, e quase ninguém ainda lembra os nomes que você conheceu. O que a Pedra guarda começa aqui.
O chão de Torathar era ferro. As árvores daquela terra não verdejavam. As folhas nasciam já entre o âmbar e o laranja, penduradas em galhos torcidos, presas a um outono que não terminava. Água havia pouca, escondida entre formações de rocha escura que se erguiam do solo como dentes gastos. Fazia meses que ela não via um pinheiro, e a falta vinha por coisas bobas: o cheiro de resina, e depois as bétulas em volta de casa, teimosas de verde, do outro lado do mar de Cristal.
O chão estremeceu. A batida veio funda e ritmada, e a poeira cinza subiu em espiral até roçar as nuvens baixas. Nas aldeias que haviam cruzado, diziam que, quando a terra era cuspida ao céu, Zarahur, o deus dos monstros, andava zangado. Lael segurou o cajado com as duas mãos até a tremedeira passar. A pedra prateada na ponta reluziu.
— Nesse lugar é tudo tão feio — disse ela, mais para o vento do que para os dois atrás. — Saudade dos pinheiros de casa.
— Eu tô com fome — respondeu Iestyn. — Meses naquele barco, comendo bolacha de farinha e carne seca. Preciso de comida de verdade.
— Quando é que você não tá com fome — disse Lael. — E falam que é um navio milenar, o Canção das Ondas. De canção só tinha o rangido da madeira velha.
— Velho ou não, ele atravessou o mar inteiro — disse Steren.
Lael nem se virou. Já sabia de cor a forma dos dois na estrada. Steren vinha meio passo atrás, alto, o cabelo vermelho caído no rosto. Apertava os olhos cinzentos contra a claridade baixa. As duas espadas de metal escuro cruzadas nas costas.
Do outro lado vinha Iestyn, mais baixo e mais largo, a armadura prateada cintilando apesar da poeira. O cabelo cor de metal jogado para o lado, os olhos âmbar já procurando alguma coisa para pôr na boca.
— A gente nasceu na mesma hora, no mesmo quarto — disse Iestyn, para ninguém em especial. — Aí um bebe a poção da Umbra e vira isso aí.
— Isso aí — repetiu Steren.
— Magro, calado, dorme em pé. Eu bebi a do Esplendor. — Ele bateu duas vezes no peitoral, e a armadura respondeu com um som cheio. — Olha o resultado.
— Olhei.
— E?
Steren não respondeu na hora. Lael achava que só a lembrança de quando os gêmeos eram iguais ainda os mantinha irmãos.
— Se treinasse mais e reclamasse menos, estaria mais forte — disse Steren, afinal.
Iestyn parou no meio da estrada.
— Forte eu já sou, não preciso treinar. Você tá é me chamando de gordo.
— Não chamei.
— Chamou com o silêncio.
— Então o silêncio te chamou de gordo. Reclama com ele.
Iestyn largou o escudo das costas para a mão e rodou a clava uma vez, sorrindo com todos os dentes.
— Reclamo com quem eu quiser.
— Quieto, gordo.
— Quero ver você me derrubar esse gordo, magrelo.
— Fácil.
Os dois se viraram um para o outro, as armas já na mão, e o cansaço desceu pelos ombros de Lael.
— Pelos deuses. Vocês não passam meio dia sem brigar. — Ela se pôs entre os dois, o cajado atravessado. — Eu aqui morrendo de saudade de casa, e vocês querendo se matar por causa de nada.
— Quando é que você não tá triste — disse Iestyn. — Ou chorando porque um passarinho pediu comida e a mãe não tava no ninho.
— Chora mesmo — disse Steren.
— Quando a gente pegou aquele cervo na floresta funda, ela se jogou no chão.
— Se jogou e rolou.
— Ou quando...
— Chega, os dois. — Lael sentiu o rosto esquentar. — Eu separo a briga de vocês, e vocês me pagam falando de mim. Eu amo os bichinhos, sim. E se alguém falar mais uma palavra, eu congelo o negocinho que vocês usam pra fazer xixi.
— Quero ver achar o do Iestyn, minhoquinha — disse Steren.
— Cala a boca. E você, que vive... vive...
Um bode surgiu de trás de uma formação de rocha e parou. Mastigou. Olhou os três sem se incomodar com nenhum deles. A barriga de Iestyn roncou. Ele virou-se para Steren, e os dois trocaram o mesmo aceno de cabeça.
— Não — disse Lael.
— Sim — responderam os dois em uníssono.
O bode não teve tempo de dar dois passos. Virou-se para correr e já os tinha em cima: Iestyn cravou o escudo à frente, o bicho trombou de cheio, e Steren veio pelo lado com um corte limpo. O bode caiu. Levaram-no até Lael pendurado pelas patas.
— Vocês não precisavam matar ele assim.
— Preferia que a gente torturasse antes? — disse Steren.
— Se tá tão incomodada, não come — disse Iestyn.
Lael olhou dos dois para o bode, e do bode para o próprio estômago vazio.
— Vou comer porque tô com muita fome. Mas sob protesto.
Acharam um trecho abrigado entre duas lajes de rocha e juntaram gravetos secos, retorcidos como tudo o que crescia ali. A fogueira custou a pegar. A madeira de Torathar ardia devagar e soltava um cheiro metálico. O bode assou espetado, e por um tempo os três comeram sem falar nada.
Lael abriu o mapa sobre os joelhos, a luz alaranjada da fogueira tremendo sobre as linhas.
— Estamos a alguns dias do reino de Dratannin.
— Tô precisando de uma boa estalagem — disse Iestyn, a boca cheia. — E de umas donzelas.
— Eu quero uma bebida decente — disse Steren. — Qualquer coisa que não seja rum e cerveja rala.
— E eu, um banho demorado — disse Lael. — Água fumegante, bastante tempo pra abrir os poros do meu rostinho lindo.
— Rostinho lindo coberto de fuligem — disse Iestyn.
— Melhor coberto de fuligem que coberto de nada, careca.
— Eu não sou careca.
— Ainda, mas já tem uma entradinha aqui.
Steren remexeu as brasas com a ponta de uma espada. Depois disso ninguém falou por um tempo, só o estalo da lenha ferrosa e o vento raspando as rochas.
— Você tá quieta — disse ele, afinal.
— Saudade. — Lael puxou os joelhos contra o peito. — Meu pai ia detestar essa terra quente. Sem uma árvore verde, sem um rio decente. Ele gosta de lugar com frio.
Ela olhou pro fogo, o queixo nos joelhos. — Ele diz que tem uma coisa dele em mim. No sangue. Que um dia eu vou entender o que é. — Deu de ombros. — Até agora, só me sai gelo e água. Nada acende.
— Melhor assim — disse Steren, e se deitou, as mãos atrás da cabeça. — O que acende vira alvo. Alvo nítido morre.
— Que romântico, Steren.
— Último dos românticos.
— Eu sou muito mais romântico — disse Iestyn. — Tem pelo menos três donzelas chorando por mim agora.
— Estão chorando no ombro de outro — respondeu Steren.
— Uma choradeira sem fim — completou Lael.
— Tem inveja porque ninguém quer você, estranha.
A discussão continuava e a noite chegava. O céu de Torathar não tinha a delicadeza do céu de Andronor; escurecia de um cinza para outro até estourar em estrelas duras e brancas. Lael terminou de comer e se levantou, e sacudiu as migalhas do vestido azul de bordados pretos.
— Aqui serve pra acampar.
Bateu o cajado no chão de ferro. A pedra prateada acendeu com uma luz fria, e do solo começaram a nascer paredes de gelo, subindo em placas que se encaixavam umas nas outras até formar uma cabana rústica, duas águas apoiadas num vértice. O ar em volta ficou cortante e limpo.
— Pronto. A primeira vigília é minha.
— Espero que não tenha goteira — disse Steren.
— Fica à vontade pra dormir lá fora, se quiser.
— Vou dormir na cabana. Dessa vez.
— A segunda vigília é sua, ó Steren. — Ela apontou o cajado para ele e depois para o próprio ombro, resignada. — Eu não consigo te acordar de jeito nenhum. Da última vez, conjurei água na sua cara.
— Sono de príncipe não deve ser interrompido — disse ele, já se deitando.
— Pode deixar que eu acordo o príncipe no estilo de Cadanor: na clava — disse Iestyn.
— Essa eu quero ver — disse Lael.
Quando ela se virou outra vez, Steren dormia. Fundo, abraçado às bainhas das espadas, a respiração longa e igual.
— Não sei como ele consegue.
— E antes da poção da Umbra ele dormia ainda mais — disse Iestyn, num bocejo. — Boa noite, Lael.
— Boa noite.
Ela sorriu de canto e se acomodou na entrada da cabana, o cajado sobre as pernas. As estrelas subiram até o ponto mais alto, marcando o fim de mais um ano, e brilhavam com uma força tão forte que disputavam com a lua. Lael puxou a capa até o queixo.
Que saudade de casa. Como será que papai e mamãe estão. Imaginou o pai resmungando de alguma coisa qualquer, do jeito dele, enquanto a mãe o tratava feito criança grande. Logo eu volto. Assim espero. E espero que não estejam bravos demais por eu ter desobedecido. Fechou os olhos de leve, sem deixar o sono levar. Ela tinha atravessado um oceano inteiro fugindo daquela quietude. Não sabia mais se por coragem, se por teimosia. Tinha vindo também para descobrir uma coisa: se o sangue dele corria nela do jeito que ele dizia, ou se era só uma menina que chorava por bode e sabia gelar água.
O céu girou devagar sobre Torathar, e a vigília seguiu.
Pela manhã, o sol nasceu fraco no horizonte de ferro, uma brasa embaçada atrás da névoa cinza. Todos já estavam de pé. Steren nem tanto: caminhava de olhos semicerrados, o sono ainda grudado nas pálpebras. Iestyn alongava os braços e dava passadas largas, animado demais para a hora.
— Seu ânimo é contagiante — disse Lael, no meio de um bocejo.
O sol subiu, e eles seguiram devagar pela planície.
— Um cavalo faria bem — disse Steren.
— Eu queria uma carruagem — disse Lael. — Esse sol vai me marcar a pele de porcelana.
— Cavalo eu comia inteiro — disse Iestyn.
O chão voltou a tremer. Dessa vez não foi uma batida só. Um buraco se rasgou fundo à frente deles, cuspindo terra e ferro para o alto, e um ruído gutural subiu de dentro dele, tão grave que as poucas árvores em volta estremeceram nas raízes. O chão pulsou uma vez, e outra, como passos.
A criatura saiu arrastando o próprio peso. Quando a poeira baixou, Lael entendeu o que fazia a terra tremer. Um tarrasque.
Uma criatura enorme, couraça sobre couraça, cor de rocha molhada, com espinhos que corriam do focinho até a ponta da cauda. Pisava com garras que afundavam no ferro do chão, as pernas curtas e grossas demais para o corpo. Da bocarra de dentes irregulares e amarelados pendiam duas presas curvas. Os olhos eram pequenos. Pequenos demais, e não desgrudavam dos três.
Lael segurou o cajado com as duas mãos. Ao lado dela, o escudo de Iestyn subiu. Steren puxou as duas espadas e balançou a cabeça devagar.
— A gente tá ferrado — disse ele.
A criatura grunhiu, e o som foi ensurdecedor. As pupilas se dilataram, fixas nos três. Deu um passo, e outro, e ganhou velocidade.
— Se espalha — disse Lael, e recuou, o cajado apontado.
Kengaon enfium en.
Um jato fino de água saiu da pedra prateada e cruzou o ar até o flanco do tarrasque. A criatura mal sentiu. A água escorreu pelas placas.
— Ótimo — murmurou ela.
Steren avançou pelo lado oposto, as espadas erguidas.
Fhreghe ihubhro.
Uma chama negra brotou das duas lâminas, deslizando no metal escuro sem consumi-lo. A fera virou a cabeça inteira na direção dele e esqueceu Lael.
O tarrasque abocanhou o ar onde ele estivera. Steren já tinha saltado, um giro para trás que o pôs fora do alcance, e aproveitou a descida para cravar as duas espadas no pescoço da criatura. As lâminas de fogo negro rasparam o couro e escorregaram. Não entraram.
— Essa aberração é feita de quê — disse Iestyn, e correu pelo flanco aberto e vibrou a clava com toda a força na pata dianteira. O golpe ecoou como sino, e a clava voltou para ele. — Nada machuca ela!
A fera girou, e a cauda veio rasgando o ar. Lael bateu o cajado no chão e o gelo se espalhou sob seus pés; ela deslizou para trás, e a cauda passou raspando e arrancou lascas da rocha onde ela estivera. Do outro lado, Iestyn saltou por cima dela, apoiou-se na garupa da criatura e desceu a clava na base do crânio. O tarrasque sacudiu a cabeça, incomodado, sem cair. Iestyn chocou o escudo na lateral do focinho, e a fera só virou-se para ele.
Lael girou o cajado sobre a cabeça.
Zaelova enmu fielmu irvaon.
Um vendaval de gelo desabou sobre o tarrasque. O vento cortava, e a couraça começou a cobrir-se de uma crosta branca; a fera parou, as patas resvalaram no próprio peso, e ela quase tombou para trás. Por um sopro, Lael achou que tinha conseguido.
Então a criatura enfiou as garras no chão e avançou. Direto para ela.
Não haveria tempo de desfazer a postura da magia e recuar. Lael viu a bocarra descer sobre ela, os dentes amarelos abertos, e o gelo ainda preso ao cajado.
Iestyn entrou na frente.
Ele meteu o escudo entre ela e a boca da fera, e a mandíbula fechou. A base do escudo travou entre os dentes. Iestyn pisou no maxilar de baixo e tentou saltar, mas o tarrasque abocanhou de novo, mais fundo, e o engoliu pela cintura, o escudo entalado como uma cunha, e a boca não fechava de todo. A cabeça subiu, e a garganta da criatura trabalhou.
— Não! Iestyn! — Steren correu, o rosto sem cor.
Lael ficou parada, o cajado a meio gesto. Uma voz ressoou de dentro da fera.
Yaelge enmiui loizemael loinu.
A voz era de Iestyn. A mandíbula do tarrasque começou a se abrir, forçada de dentro. Quando a boca cedeu, Lael viu Iestyn surgir entre os dentes com a pele tomada de um azul-metálico, um brilho frio correndo sob a superfície. A armadura reluzia mais. As armas reluziam mais. O esplendor. Lael já tinha visto aquilo duas vezes, e nas duas ele estava a um golpe de morrer; nunca conseguia chamar antes disso. Ele empurrava as duas fileiras de dentes com o escudo e os ombros, os músculos travados de força tomada do céu.
Lael não perdeu a abertura. Bateu o cajado no chão.
Enfium nonmilu en.
Uma coluna de água jorrou sob os pés dela e a arremessou para cima, na altura da cabeça da fera. No topo do salto, Steren cravou a ponta da espada no olho do tarrasque. A lâmina escura afundou. A criatura vacilou, e um urro rasgou o ar. O tarrasque afrouxou a mordida o bastante para Iestyn se jogar para fora, rolando pelo chão de ferro.
Mas o tarrasque rodou o corpo inteiro, e a cauda encontrou Lael no ar. Ela mal ergueu uma barreira fina de água antes do impacto; mesmo assim o golpe a lançou rodopiando pelo chão metálico, o gosto de sangue na boca. No mesmo movimento, a fera abaixou a cabeça e acertou Steren em cheio, e ele caiu com tanta força que o solo cedeu sob ele. Iestyn ergueu o irmão ferido pelo braço e arrastou os dois até Lael, e os três ficaram ali, caídos, ofegantes, enquanto a criatura se recompunha. Nenhum golpe a ferira de verdade. Ela vinha de novo.
Lael tentou levantar e não conseguiu. Steren ajoelhou-se, uma perna firme, a outra tremendo. Iestyn se pôs à frente dos dois, ferido, o escudo amassado erguido contra o que vinha.
— Acho que acabou — disse ele. — Pelo menos foi um tarrasque.
— Não vai acabar assim — disse Steren. — Ou vai. Mas que droga.
Atrás deles, Lael se levantou. O olhar cravado na fera, o corpo doendo em lugares que ela nem sabia nomear, e o calor antigo que o pai dizia que ela carregava acordou no peito dela e dessa vez não voltou a dormir. As mãos soltaram faíscas. Depois raios. O ar ficou pesado e elétrico, e o cabelo loiro se ergueu.
Das costas dela, a luz rompeu. Duas asas de raios se abriram, largas, e crepitaram, e riscaram de branco o cinza de Torathar. Os pés de Lael deixaram o chão de ferro. Ela subiu, meio palmo, depois um palmo, o vestido azul tremendo no vento que ela mesma fazia.
Yaenir on rionva elmi.
Ela deslizou no ar até ficar sobre o tarrasque, as asas abertas, e baixou o cajado. Uma tempestade de raios desabou pelo corpo inteiro da fera. Ela travou. Os músculos se contraíram sob a couraça, empurrando as placas de dentro para fora, e entre uma e outra abriram-se frestas de carne viva. O monstro urrava enquanto os raios queimavam por baixo do que antes era fechado.
— Nas frestas! — gritou Lael, os dentes cerrados. — Agora, que eu não seguro isso por muito tempo!
Steren e Iestyn passaram correndo pela lateral. Iestyn se abaixou, fincou o escudo no chão e ofereceu as costas; Steren pisou nele, e Iestyn o lançou para cima com um solavanco. Steren subiu alto, girou no ar, e no ponto mais alto encarou a criatura presa lá embaixo e sorriu.
Qhehrthrâ tsehnhrui.
A chama negra das espadas ficou mais densa, quase sólida, e ele juntou as duas lâminas à frente do rosto enquanto o corpo caía em queda livre. Embaixo, Iestyn franziu a testa e ergueu a clava, o esplendor ainda correndo azul sob a pele.
Yaelge enmiui numrol aelmie ironmie.
Ele impeliu a clava para cima no mesmo instante em que Steren descia com as espadas. A tempestade de Lael prendia a fera no lugar, sem deixá-la recuar. Os dois chegaram no mesmo movimento, o fogo negro descendo de cima, o metal claro subindo para encontrá-lo. A clava acertou o queixo do tarrasque e o impulsionou para o alto, e as placas do pescoço se afastaram mais um dedo. As espadas de Steren vieram logo atrás. Com o peso do corpo inteiro por trás delas e a chama negra ainda no metal, entraram nas frestas abertas, e dessa vez não escorregaram. A couraça cedeu. Umbra e esplendor cortaram fundo, e os raios de Lael correram pela ferida aberta e acharam o caminho.
O tarrasque caiu. O chão tremeu uma última vez, e a poeira cinza subiu de novo às nuvens. Steren terminou o giro no ar, mas ao pousar as pernas fraquejaram e ele sentou no chão sem elegância nenhuma. As asas de raios tremeram, esmaeceram e se apagaram, e Lael desceu, os pés tocando o ferro mais uma vez. Caiu de joelhos, o corpo ainda tremendo com a corrente que a atravessara.
— Conseguimos — disse ela, a voz fina.
— Cadê o Iestyn? — disse Steren.
— Tô aqui. — Iestyn saiu de baixo do bicho, o escudo amassado na mão. — Ele é mais pesado que você, Lael.
— Cala a boca. A gente quase morre e você já vem com gracinha.
Iestyn não riu. Estava olhando para as costas dela, onde não havia mais nada.
— Lael. Aquilo eram asas.
— Eu sei.
— Asas de raio. Você subiu no ar. Você subiu no ar e desceu tempestade na cabeça do bicho. — Ele deu a volta nela sem chegar muito perto, como quem contorna uma fogueira. — A gente atravessou um oceano junto. Você nunca fez isso. Nunca fez nem parecido. Eu ia lembrar de uma coisa dessas.
— Eu também ia.
— Então explica.
— Não sei explicar, Iestyn. — Ela abriu e fechou as mãos, ainda formigando. — Doeu, e depois parou de doer, e depois eu tava lá em cima.
Steren tinha se levantado. Ficou olhando para ela mais tempo do que costumava olhar para qualquer coisa.
— Alvo nítido — disse.
— Você falou isso ontem.
— Falei.
— Só isso? — Iestyn abriu os braços. — Ela vira tempestade na nossa frente e você economiza palavra até agora?
Steren deu de ombros e recolheu as espadas.
— Ela já sabe o que eu penso.
Ela sabia. E pensou no pai, no sangue que ele dizia que corria nela, e em como ele nunca tinha explicado direito.
Os três olharam para a criatura. O corpo queimado, a parte de cima da cabeça aberta pelo corte, o queixo amassado pela batida. Uma montanha morta de couraça e espinho no meio da planície de ferro.
— A gente matou um tarrasque — disse Lael, ainda sem acreditar.
— Somos os melhores de Andronor — disse Iestyn.
— Torathar. Aqui é Torathar. — Steren cuspiu poeira. — Como é que somos os melhores se nem sabemos onde estamos.
— É jeito de falar.
— Jeito errado.
— Ah, parem os dois. De novo. A gente tá todo lascado e vocês brigando.
E os três começaram a discutir ao mesmo tempo, as vozes atropeladas, uma por cima da outra.
A briga morria e voltava, os três já sem fôlego para sustentar a própria implicância. Lael parou antes dos irmãos. Recortado contra o clarão do sol baixo, no cume da colina de ferro, havia alguém.
Ela apertou os olhos. A luz vinha por trás dele e queimava de branco todas as beiradas.
Começou por baixo, pelas botas. Placas de prata afundadas na terra ferrosa, sem uma marca de poeira. O metal seguia pernas acima em sulcos finos de gravação. Dos quadris caía um tecido claro até quase o solo, e o vento morno o mexia devagar, branco demais para uma terra de laranja e cinza.
A espada estava fincada de ponta no chão, longa, de lâmina clara, e ele a segurava com a mão esquerda. No braço direito trazia um escudo grande e curvo.
E ela conhecia essa troca.
Subiu mais. Os ombros largos, o manto claro caído por trás. O queixo com uma sombra de barba. E o cabelo, loiro, solto até o maxilar, aceso pelo sol de um jeito que doía olhar.
O rosto ela não alcançava. A luz comia tudo acima do peito, e o que sobrava era contorno e brilho, sem lugar onde fixar a certeza.
Podia ser um cavaleiro qualquer; Torathar tinha os seus. Podia ser o sol pregando peças numa cabeça cansada.
Então o vento virou e levantou o manto.
Duas asas abertas estavam gravadas no aço sobre o coração, e as pontas quase se tocavam na altura da garganta. Lael tinha visto aquelas asas a vida inteira.
O vulto não se mexeu. E mesmo sem ver o rosto, mesmo sem poder jurar, a palavra brotou na garganta dela antes que a razão desse conta de segurá-la.
— Pai.